
Ele era o rapaz mais baixo da turma, tinha orelhas de abano e era um pouco sopinha de massa. Não era o mais inteligente nem o melhor a jogar à bola, mas qualquer coisa nele despertou em mim os tais sentimentos que não precisamos que ninguém nos explique. Olhava para ele com uma ternura desmedida e conhecia de cor todos os pequenos cabelos do ridículo remoinho que tinha no cocuruto. Para mim ele era o melhor do mundo e não disfarçava o meu encanto nem me preocupava com o facto de toda a gente saber dos meus sentimentos, porque parecia-me uma coisa bonita demais para esconder.
Foi o 1º rapaz que sonhei beijar, o 1º a quem escrevi cartas de amor e o 1º perante o qual me humilhei além do impossível.
- Queres namorar comigo?
- Não!
- Tens a certeza?
- Tenho. Não é de ti que eu gosto.
E mesmo assim, durante os 4 anos seguintes, mantive acesa a esperança de que um dia ele ia perceber que eu era A tal, até o sentimento começar a desvanecer-se.
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- Ena... estás muito diferente!
Sentia o olhar dele preso no meu e desejei perguntar-lhe se "diferente" era melhor ou pior do que antes, mas balbuciei apenas:
- Tu também estás diferente....
E estava. Mais alto que eu (finalmente), o rosto mais alongado e um início de barba a aparecer. Já não se parecia com a imagem do menino que eu memorizara, na verdade achei-o bastante feio. Preferi manter guardado em mim o velho e doce retrato: os calções, o sorriso rasgado, os olhos negros e o cabelo em desalinho... Meus, intocáveis e para sempre...















